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O que é um conto?

O conto é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão (no sentido estrito de tamanho), ainda que contenha os mesmos componentes do romance. Entre suas principais características estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito ou impressão total: o conto precisa causar um efeito singular no leitor, muita excitação e emotividade. Pode ter um caráter real ou fantástico, da mesma forma que o tempo pode ser cronológico ou psicológico. Pode ter um final enigmático ou carregar o mistério ao longo de toda a narrativa.

Fonte: Wikipédia

Quer aprender mais sobre teoria do conto? Consulte a Wikipédia neste link:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conto

O Conto "Aquela Noite" está inteirinho aqui no site pra você!

 

Aquela noite

 

Ele não precisava ter ido, essa era a verdade. Podia ter inventado uma desculpa, ou chegado tarde, ficado só um pouco, e logo ir embora. Eu estava ansiosa por saber qual seria o comportamento dele naquela noite, na "minha" noite, mas também tinha prometido a mim mesma que, com ou sem a presença dele, eu iria me divertir.

Para minha total surpresa, ele chegou cedo, pouco antes das onze horas. Estava impecavelmente bem trajado num estiloso terno preto. Por coincidência, a gravata vermelha que usava era da mesma cor do meu vestido. Timidamente, cumprimentou meus outros convidados e depois a mim. Sempre cumprimentava os outros primeiro e me deixava por último. Isso me irritava profundamente. Nunca entendi por que ele fazia aquilo.

Ele estava suando muito. Deu-me os parabéns e foi só. Não quis se sentar na mesa com os outros. Sugeriu que fôssemos até o bar tomar um refrigerante. Nosso amigo Pedro nos acompanhou. Enquanto tomávamos o refrigerante, ele me deixou sozinha com Pedro, dizendo que ia "tomar um ar lá fora".

O comportamento dele sempre foi uma incógnita tão grande para mim. Sempre o imaginava cercado de mulheres lindas, um dom Juan sedutor e aventureiro, não pelo que eu via ou ouvia a respeito dele, mas pelo o que ele mesmo costumava me dizer. Mas, no dia-a-dia, eu não via isso acontecer.

Nas horas que passávamos juntos, ele normalmente era agradável, alegre, animado. Mas muitas vezes eu via um olhar desconfiado naquele semblante. Às vezes ele me olhava de longe, não sorria, nem fazia cara feia, apenas me cumprimentava com um leve e quase imperceptível meneio. Havia dias, no entanto, em que ele estava em evidente euforia. Nem eu mesma, tão falante e animada, conseguia concorrer com tanta jovialidade. Às vezes precisava que ele fosse um pouco mais sereno, mais tranquilo, que acalmasse meu coração em conflito.

Nossa amizade era como um riacho borbulhante e sem muitas curvas, mas as águas eram meio turvas. Como qualquer amigo, emprestávamos livros um para o outro, jogávamos conversa fora, brincávamos, mas a timidez de ambos não permitia nada além disso. Um dia senti que a mão dele tocou a minha mais tempo do que o normal quando ele foi me devolver alguma coisa, agora não me lembro o quê. Às vezes, voltando da escola, ele insistia em carregar meus livros. Achava aquilo engraçado, tão antigo! Muitas vezes também ele desviava do caminho dele e ia comigo até a porta de casa. Nos finais de semana, inesperadamente, ele aparecia para devolver algum disco ou livro, mas nunca queria entrar ou passar mais de cinco minutos conversando.

Quanto finalmente acabamos de tomar o refrigerante, fui procurá-lo lá fora. Pedro sempre perto de mim, um cavalheiro. E lá estava ele, gravata afrouxada. Parecia um pouco melhor.

Sentei-me num banco do jardim. Os dois cavalheiros se postaram à minha frente. A noite estava fresca e agradável e havia um perfume de dama-da-noite no ar. Acho que muitas garotas ficariam com inveja de mim se tivessem visto aquela cena, eu, pobre de mim, com dois rapazes lindos me paparicando naquela "minha" noite. Acho que até eu mesma fiquei com inveja de mim!

Pedro pediu licença para ir ao banheiro. Talvez tivesse notado "algo" no ar. Adorei ele por isso. Adorei mais ainda por ele ter demorado uns 20 minutos para voltar.

Então puxei as saias do meu farto vestido e convidei-o a sentar. Ele se sentou, perguntei se estava melhor e ele disse que sim. Aos poucos, começamos a quebrar o gelo, a conversar como normalmente fazíamos. Afinal, não éramos amigos? Por que era sempre tão difícil conversarmos naturalmente?

A partir daquele momento, as coisas melhoraram naquela noite. Ele foi se soltando e logo não parecia mais tão inibido. Quando Pedro voltou, estávamos rindo e conversando normalmente, para meu alívio.

Convidei os dois para voltarmos ao salão. Afinal, a festa era lá. Mas, quando cheguei na mesa reservada aos meus convidados, onde estava ele? Em lugar nenhum! Teria se perdido na multidão?

Eu não queria ficar correndo atrás dele, juro que não! Eu nem esperava que ele tivesse aparecido naquela noite! Mas, já que ele estava ali, eu queria toda a atenção dele só para mim! Só naquela noite, pelo menos naquela única noite...

Então tomei a mais radical das atitudes. Deixei todos os meus convidados para trás e fui procurá-lo. Encontrei-o novamente no bar. Estava bebendo água. Ele não me viu quando me aproximei devagarzinho. Olhei bem para os lados para ver se ele estava conversando com alguma garota – o que faria com que eu me afastasse imediatamente – mas ele estava sozinho. Quando ele me viu, abriu um enorme sorriso, o que me encorajou a me aproximar mais.

Conversamos mais um pouco e então, com a maior cara de pau deste mundo, disparei: "você quer dançar comigo"? Ao que ele imediatamente respondeu: "quero, vamos".

Fomos direto à pista de dança e, naquela noite, o cansaço não me abateu em nenhum momento. Dançamos o tempo todo, de rosto colado, valsa, samba, ritmos que eu nunca tinha dançado antes. Acertamos o passo como se fôssemos companheiros de dança há anos. Eu não queria parar, nem ele pediu para isso. Só paramos quando o locutor anunciou que chamaria os formandos para a valsa dos pais.

Ele já tinha avisado que precisava ir embora. Mas eu queria convencê-lo a ficar, a dançar comigo a valsa dos padrinhos. Eu precisei insistir, mas só um pouquinho. Foi bem fácil fazê-lo mudar de ideia.

Perdi-o de vista durante a valsa, que foi bem demorada. Quando por fim acabou, procurei desesperadamente por ele. Achei que já tinha ido embora. Mas, surpresa: alguém bateu no meu ombro, era ele!

Dançamos ainda muito mais naquela noite. Ele não foi embora logo após a valsa dos padrinhos, mas ficou para a seleção de músicas dos anos 60, para a seleção dos anos 70 e outras. Para onde íamos, íamos de mãos dadas. Sinceramente, queria que aquela noite não terminasse.

Já era bem tarde e havia pouca gente no salão. A maioria dos meus convidados já tinha ido embora e meus pais estavam cansados. Por fim, ele declarou que estava indo também. Ele me beijou no rosto e eu o abracei, feliz, por ele ter me proporcionado uma das mais lindas noites de minha vida.
 

          

 

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