Paradise Found

Song: from Cinderella - So This Is Love

 

Jovens Fidalgos - O Baile

 

 

Louise Benett e eu, a webdesigner, pensamos muito até decidirmos colocar esta página no site. É uma parte importante do livro Jovens Fidalgos, uma das mais doces e delicadas. A princípio, tínhamos pensado em colocar só a versão em inglês, traduzida especialmente para uma grande amiga de Louise que mora na Alemanha e que não fala português. Mas esta página ficou tão linda, com a ilustração do baile, a música tão doce e perfeita, que... bem, ela tinha que estar aqui em português também! Então aqui está, o grande baile real, sem mais delongas!

 

 

 

 

O baile começou às oito horas em ponto, ao primeiro toque da orquestra. Todos os convidados dirigiram-se aos salões principais, num farfalhar de vestidos e de espadas. Era uma verdadeira enxurrada de cores, havia confetes e serpentinas, a agitação típica de uma festa carnavalesca. Os olhos de Alexia brilhavam. Sentia-se bastante segura em sua fantasia dourada, podia ver tudo através da máscara, sem que ninguém soubesse para onde estava olhando. Assim, tentava localizar Marcus. Estaria fantasiado? Mas nem os guardas do palácio nem Louis estavam fantasiados; então decerto ele também não estaria. Achou que logo o avistaria e que poderia olhá-lo à vontade, sem que ele percebesse.

 Mas muito tempo se passou e ela não o viu em parte alguma. Resolveu ficar bem ao lado de sua majestade, mas ali Marcus também não estava. Dois guardas bem grandes e feios ficaram o tempo todo ao lado do rei.

 Ivanna circulava no salão com grande desenvoltura. Louis não se afastava das moças. Embora tivessem resolvido que seria uma festa de mascarados, Ivanna constantemente levantava sua própria máscara e revelava quem era, e assim também faziam os outros convidados, em meio a muitas risadas e brincadeiras.

 Alexia sentia-se um pouco desconfortável. Seu pé estava doendo um pouco. Embora muitos a admirassem em seu belo vestido dourado, nenhum cavalheiro ainda se aproximara dela, pois a presença de Louis e do rei, de quem resolvera não desgrudar, intimidava até mesmo os mais ousados. Num dado momento, Ivanna chegou ao lado dela e puxou-a para o meio do salão.

— Vem, querida, quero apresentar-te alguns amigos!

Louis, sempre muito atento, ficava a alguns passos das moças, mas procurava deixá-las à vontade. Ivanna apresentou um sem-número de cavalheiros a Alexia, e ela dançou com alguns, mas continuava muito deslocada. Todos queriam que levantasse a máscara e que mostrasse seu rosto, o que ela fazia muito rapidamente, deixando muitos estonteados, mas também muito frustrados. Ela pouco conversava, e mesmo os mais agitados e conversadores logo desanimavam de tentar entreter a jovem. Como era de se esperar, devido à sua natureza fogosa, logo Ivanna cansou-se de pajear a amiga e voltou a circular pelo salão, deixando Alexia aos cuidados de seu pai e de Louis.

Alexia considerava seriamente pedir licença ao rei para ir até seus aposentos. Talvez nem voltasse mais. Sabia, no entanto, que não podia fazer tal desfeita a Ivanna. Teria de arrumar uma maneira de se divertir, nem que fosse forçado, até o baile acabar. Afinal, estava tão linda em sua fantasia, seria uma pena desperdiçar tudo. E, quem sabe, ainda tinha esperanças de vislumbrar Marcus em algum lugar.

Num dado momento, Alexia percebeu que Louis se afastara um pouco, deixando-a sozinha. O velho rei parecia cansado, estava sonolento, abria e fechava a boca a todo instante. Ele próprio não se divertia muito nesses bailes, mas fazia questão de estar presente, de olho em Ivanna.

— Será que o sol não gostaria de iluminar um pouco o terraço? Há muitas luzes lá fora, mas certamente nenhuma delas poderá iluminar o jardim mais do que a vossa presença...

A voz forte que vinha por cima do ombro de Alexia a assustou. Olhou para trás e deparou-se com um cavalheiro alto, vestido com uma fantasia preta. Usava uma capa, um capuz e uma máscara também pretos, máscara esta que  lhe cobria todo o rosto. Na máscara havia, pintadas, duas pequenas lágrimas prateadas que pareciam cair-lhe dos olhos. Era uma fantasia bastante sóbria e misteriosa, o que chamou bastante a atenção de Alexia.

— Agradeço-vos o elogio, senhor, mas prefiro não me ausentar do salão.

— Então, permiti-me o prazer desta dança?

Alexia já havia recusado algumas danças porque estava com o pé bem dolorido. Mas precisava passar o tempo. Então, aceitou. Esperava que o misterioso cavalheiro não lhe pedisse para levantar a máscara, porque decididamente não estava com vontade de fazê-lo.

Dançaram por alguns minutos e Alexia sentiu o pé doer muito. Delicadamente, tentou dispensar o cavalheiro.

— Desculpai-me, senhor, mas estou um pouco cansada. Podeis me dar licença?

— Permiti-me então, senhora, que vos busque um refresco e vos faça companhia. Podemos ir até o terraço e respirar ar fresco — insistiu ele.

Alexia ficou muito zangada. Aquele homem estava querendo ficar a sós com ela, decerto tentaria cortejá-la e pediria para que mostrasse seu rosto. Ela não sabia o que fazer. Ivanna encheu-a de conselhos, mas esqueceu-se de ensinar o principal: como livrar-se de cavalheiros indesejáveis.

Depois de hesitar alguns instantes, que pareceram eternos para o cavalheiro, Alexia concordou em esperá-lo no terraço. Sabia que Louis a acompanharia e que estaria por perto. Bastaria um aceno e estaria livre da inoportuna companhia.

Alexia dirigiu-se então ao terraço. Estava certa que Louis viria ao seu encalço. Quando chegou à porta do salão que dava para o terraço e para os jardins, notou, para seu desespero, que Louis não tinha vindo atrás dela. Não conseguia vê-lo em parte alguma! Parecia que tinha evaporado.

O salão era muito grande e havia centenas e centenas de convidados. Alexia pensou em correr até o outro lado, onde estava seu padrinho, na certa Louis a tinha perdido de vista durante a dança. Entrou novamente no salão, mas, para sua aflição, deparou-se com o cavalheiro mascarado bem à frente, com duas taças de refresco nas mãos.

— Por favor, senhora, permiti-me.

Dando o braço a Alexia, conduziu-a até o terraço. Alexia sentiu vontade de gritar! E se ele tentasse agarrá-la, o que faria? O terraço não estava escuro, ao contrário, havia tocheiras por toda parte. E muitos pares de convidados espalhados, conversando, namorando e, nos cantos mais afastados, fazendo sabia-se lá o quê.

O misterioso cavalheiro ofereceu uma das taças à Alexia que, quase num gole só, bebeu tudo, de tanto nervoso. O cavalheiro percebeu a agitação da moça e, solícito, tentou conversar para acalmá-la.

— O baile está muito animado, não achas? — perguntou, já dispensando o tom formal da conversa.

— Sim, é verdade — respondeu Alexia, visivelmente nervosa.

— Saibas que te notei assim que cheguei. Tua fantasia é impressionante, ofusca todas as outras.

Alexia já começava a se irritar. Lá vinham os galanteios. Não queria ouvir aquelas coisas. Queria apenas conversar, ter de agradecer sempre que era elogiada era muito desagradável. Sabia que seria muito grosseiro o que faria, mas pensou que, daquela maneira, sentir-se-ia mais segura. Resolveu assustá-lo um pouco para mantê-lo afastado.

— Senhor, antes de dar-se ao trabalho de pensar em mais galanteios e, talvez, em cortejar-me ou importunar-me com gracejos, gostaria que soubesses que, como hóspede deste palácio e amiga íntima de sua alteza, meus passos estão sendo acompanhados de perto pela guarda real, mais precisamente pelo capitão Marcus de Lanpré.

Ao ouvir o nome do capitão, o cavalheiro assustou-se.

— Disseste... capitão... Marcus de Lanpré?

— Precisamente, cavalheiro. Decerto o conheces, não?

— Sim... conheço-o — respondeu o cavalheiro, hesitante.

— Pois então, o capitão de Lanpré é meu guardião oficial. Poderemos conversar apenas, mas peço que não tentes nada mais ousado, pois o capitão poderá aparecer a qualquer momento e tu poderás ser convidado a retirar-se do baile.

O cavalheiro de preto ficou muito atordoado. E agora? O que faria? Seria melhor pedir licença e deixar a moça sozinha?

Por algum tempo, os dois permaneceram calados. Alexia estava exultante, sabia que tinha conseguido alarmar o cavalheiro e que agora ele não tentaria nada. Por detrás da máscara, morria de rir do embaraço do rapaz. Esperava a hora em que ele pediria licença e sairia correndo. Seria a coisa mais engraçada que poderia acontecer, uma coisa realmente ótima para contar a Emilie.

Depois do que pareceram horas, o cavalheiro de preto dirigiu-se a Alexia:

— Senhora, seria muito leviano de minha parte continuarmos conversando depois do que disseste. Assim, se me permites, apresentar-me-ei e depois, se assim quiseres, irei embora.

Dito isso, levantou a máscara preta, revelando ser ninguém menos que o próprio capitão Marcus.

Alexia ficou tão vermelha que sua máscara quase pegou fogo. Tossiu, engasgou, tremeu e então acabou aceitando tomar um pouco do copo de refresco que Marcus lhe oferecia, já que tinha bebido todo o seu.

— Lamento imensamente, senhora, não queria de modo algum embaraçar‑te. Mas, como disseste que o capitão Marcus cuidava de tua segurança, quero dizer, eu próprio, o que, por sinal, agrada-me muito, não podia deixar que pensasses que eu te enganava, já que julgas estar segura com a proteção dele, digo, com a minha proteção...

Marcus tentava desculpar-se, mas enrolava-se cada vez mais nas próprias palavras. Alexia tremia, não conseguia falar nada, estava morta de vergonha! Havia simplesmente declarado sentir-se segura com a proteção do capitão a ninguém menos... que a ele próprio! Que confusão! Seu primeiro baile, seu sonho de encontrar-se com ele tinha sido um completo fiasco.

Como todas as mulheres fazem para se defender quando estão acuadas, depois de recompor-se um pouco, Alexia partiu para o ataque.

— Bem me disseram, nobre capitão, que os cavalheiros da corte eram muito galanteadores! Muito ouvi a teu respeito. Assim, não me admira estar o senhor por trás desta fantasia de cavalheiro misterioso!

Marcus não entendeu nada. O que ela estava dizendo? Não tinha feito nada, apenas tinha sido honesto.

— Desculpa-me, senhora, desculpa-me mais uma vez. Não pretendo ser galanteador, porém preciso defender-me e contar-te que o que dizem a meu respeito não corresponde à verdade. Tudo o que mais queria era vir a este baile para ver-te.

Alexia ficou perplexa.

— Ora, capitão, ainda insistes em dizer que não és galanteador? Nem me conheces, mal nos falamos, e queres convencer-me de que veio aqui somente para ver-me?

Alexia estava convencida de que a máscara, a peruca dourada e a fantasia protegiam totalmente sua identidade. Precisava fazer com que Marcus saísse do baile antes da hora em que todos tirariam as máscaras, ou ela mesma teria de sair correndo para que ele não descobrisse quem era. Se descobrisse, estaria perdida, pois, ao dizer a mentira de que ele era o responsável por sua segurança pessoal, praticamente tinha confessado seu interesse por ele. Ela usara seu nome porque, na verdade, ele nunca saía de seu pensamento.

— Pois é a mais pura verdade, senhora, foi muito difícil vir a este baile sem ser notado, apenas o fiz pois esperava ver-te nem que fosse por um momento.

— Mas nem mesmo sabes quem sou por trás desta fantasia! Decerto dizes isto a todas as damas, desculpa-me, mas teus galanteios são muito ruins, não me convencerão nem em mil anos! — disse Alexia, brava.

— Perdoa-me, senhora, mas sei exatamente quem és. Saberia encontrar-te em uma multidão.

Bem que Emilie a advertira, ele estava acostumado a uma vida com muitas mulheres. Como era falso! Queria apenas que ela abrisse a guarda e revelasse sua identidade para ele, mas ela não o faria nunca!

— Estás blefando, cavalheiro. Agora, se me permites, retirar-me-ei e voltarei ao salão, pois já devem ter notado minha falta.

Alexia fez-lhe graciosa mesura, mas, ao dar-lhe as costas, ainda pôde ouvir Marcus dizer-lhe:

— Espero que teu pé esteja melhor, senhora.

Alexia parou, petrificada. Aquela seria a hora perfeita para sair correndo. Marcus, porém, segurou-a delicadamente pelo braço e pediu, com a voz mais triste do mundo:

— Por favor, senhora, permita-me conversarmos um pouco, só um pouco; depois, se assim desejares, não importunarei mais.

O tom da voz dele a enterneceu. Sua mente dava voltas, muitas coisas a perturbavam, ouvia a voz de Ivanna e de Emilie alertando-a: "Cuidado, Alexia, és muito inocente, cuidado com os ‘lobos’ da corte". Mas agora era tarde, muito tarde.

Alexia voltou-se e olhou Marcus nos olhos. Não conseguia ver nem sombra de maldade naqueles belos e grandes olhos negros. Via apenas muita ternura, muito carinho, pareciam os olhos dos filhotinhos de Duckie quando queriam agrados...

 

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