Everyday Treasures

 

Srta. Aminta Wirraway e o Pecado da Luxúria

Ethel Anderson

(Tradução de Louise Benett)

            O tempo no verão seguinte à visita do bispo não fora menos benéfico que o outono tinha sido. Os dias estavam claros. O piquenique era para celebrar o décimo-sétimo aniversário de Aminta Wirraway, principalmente porque era a única forma de entretenimento com probabilidade de ser evitada pelos “idosos”.

            – Embora eu não qualifique as pessoas como realmente idosas até que tomem banho com a porta aberta – observou Victoria McMurthie –, as pessoas começam a envelhecer quando parecem muito pensativas depois de comerem bolinhos de maçã...

            – Ou quando recusam balas de leite...

            – Fale quando a palavra lhe for dirigida, Alberteena MacMurthie! – ralhou Victoria com sua irmã mais nova, continuando: – Mas, apesar de não sermos idosas, estamos deixando nossos trajes de banho para trás. Por que deveríamos ficar retraídas umas com as outras de repente, se até bem pouco tempo compartilhávamos uma banheira quente todo sábado à noite?

            – E quando Donalblain – que tem quatro anos – não acha nada de mais vir até o quarto pedir o sabonete emprestado?

            – Alberteena! Quantas vezes tenho de lhe dizer que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro? – e Victoria novamente reprimiu a irmã mais nova. Depois, acrescentou: – Então, para que a frescura? – E, antes de subir na charrete e tomar o seu lugar, ela escondeu, atrás da cerca-viva, nove volumosos conjuntos de roupas, feitas de vários metros de sarja e decoradas com galões brancos.

            A charrete do vigário, um aviário aberto cheio de meninas barulhentas e puxada em animado trote pela ‘velha’ Ruby (que estava fazendo dois anos), depois partiu, para estalar, hesitar e derrapar nos sulcos cavados na trilha de areia que levava de Mallow’s Marsh até Lanterloo Bay.

            A trilha era frequentemente consertada com estrados feitos de ramos novos de acácia, entrelaçados e unidos por cordas ou trepadeiras. Porém, não havia pontes sobre os riachos – esses tinham de ser atravessados numa parte mais rasa, em meio a um turbilhão de água e muitos gritos de excitação.

            No entanto, Juliet McCree era uma exímia condutora – ela levou suas alegres passageiras em segurança até a orla da baía.

            Em Lanterloo Bay, a areia lembrava o formato da meia‑lua dourada, o mar plácido assobiava vigoroso e o céu mostrava-se como de costume. Deitadas todas após um mergulho para secarem seus corpos delgados na areia quente e fofa, cada menina prestava seu tributo àquela beleza.

            – Que céu azul, que mar radiante, não há nenhuma nuvem, nenhuma onda, nenhuma ruga na água. – Alberteena, pelo menos uma vez, teve permissão para falar.

            – O mar está mais escuro do que o céu!

            – Onde estamos deitadas, acima da marca da maré alta, a areia é fina como açúcar de confeiteiro. Não há sequer uma alga ou concha.

            – O que eu mais gosto é do cheiro de samambaia gigante que vem daquele riacho.

            – O mar cheira a lagosta. – Juliet McCree, como de praxe, buscava a verdade. Ela cheirou o ar, com uma expressão culta em sua face corada, as ondas calmas lambendo seu corpo iluminado pelo sol, corpo este que, de cima a baixo, lembrava a cor de um damasco maduro.

            – Juliet! – exclamou Aminta, achando necessário fazer valer os direitos de sua idade. Protegendo sua imaculada compleição com um minúsculo guarda-sol articulado (com um cabo de marfim acompanhado por um revelador sino prateado), ela jazia, mais bonita do que qualquer Vênus conhecida no meio artístico, entre os castelos de areia que Alberteena, Gussie e Octavia construíram ao redor dela. – Juliet, saia daí! Você já ficou tempo suficiente na água!

            – Oh, não! Não posso sair ainda! A água está tão gostosa! Quero descobrir a que ela cheira. Às vezes tem um odor esquisito, quase como um ruído, e outras vezes traz a brisa das camélias brancas da vovó McCree.

            – De quem é esse lenço de linho cor-de-rosa?

            – Meu, querida.

            – Prenda-o no pulso.

            – Do outro lado da baía, Sydney começa a se parecer com uma verdadeira cidade, não é? Lá está a ponta da torre da igreja de St. James – que elegante apagador de velas!

            – Há tantos veleiros graciosos, também! Eu gosto mais deles assim, com as velas içadas, secando ao sol, refletindo-se na água enquanto balançam com a maré.

            – O Dr. Phantom na verdade não liga para mulheres.

            Gussie Wirraway tinha o péssimo hábito de irmã mais nova de abordar um assunto indesejado.

            – Que pena! – disse Victoria MacMurthie, com ar de experiente. – Ele é o único solteiro disponível entre Mallow’s Marsh e Hornsby Junction.

            – Seus três irmãos casaram-se tão bem. – Gussie não estava querendo ser deixada de lado na conversa. Sentada sobre um castelo de areia, parecendo a famosa estátua de mármore “Spinario”, ela tentava arrancar um espinho da ponta de seu rosado dedo do pé.

            – Simeon casou-se com dez mil libras em títulos públicos – observou Victoria, ainda em seu papel de mulher conhecedora do mundo.

            – Os dentes masculinos mais bonitos deste lado do Equador!

            – Ninian, o segundo filho, casou-se com vinte mil acres...

            – De quê! De dentes, querida?

            – Não, Gussie boboca! A-C-R-E-S! De terra! Cobertos de ovelhas, em Victoria.

            – E três pares de gêmeos.

            – Septimus, o terceiro irmão – que trapaceira essa Sra. Phantom, chamar o terceiro filho de Septimus – bem, ele se casou com uma linhagem de baleeiros de South Sea.

            – E tem uma baleia como esposa!

            – Não querida, ela era um peixe de água doce, um peixinho dourado, simplesmente. Fui uma das damas de honra do casamento. – Aminta tristemente despertou de seu devaneio.

            – Minhas caras! – Victoria evitava o contato com uma acácia em flor que Alberteena usava para varrer a areia. – Todos eles se casaram com a Prosperidade.

            – Sim, e olhe para eles! Ninian, aos trinta anos, já tem uma carruagem, um trole, cinco cavalos de montaria, um serviço de jantar Crown Derby com talheres completos para quarenta pessoas, uma casa razoavelmente bonita em Point Piper – bem na mosca, realmente...

            – E três intoleráveis e patéticos pares de gêmeos!

            – E o Simeon, oh, querido! Eu gosto tanto de Simeon. Ele é tão rico, tem uma propriedade tão bonita. Dois mil carneiros merinos, mil cabeças de gado, tudo a um só dia de viagem...

            – Do copo de aguardente mais próximo.

            – E com uma prole desajeitada de catorze filhas, além do rosto marcado pela bexiga.

            – O Dr. Phantom não liga para outra coisa além de esportes.

            – É mesmo! Assim que ele tem um minuto livre, sai com aquele alazão selvagem bobinho que tem, cercado por todos aqueles vira-latas, párias, dingos, collies, kelpies! Rau, au, au, riiiiii, riiiiii. Ah, que estrondo, que tropel! Hoje eles me acordaram às quatro horas da manhã.

            – Para onde ele vai?

            – Quase sempre para aquela velha estalagem, “The Devil’s Tail”, em Doggett’s Patch, cerca de catorze milhas depois de Windsor, perto do rio Hawkesbury.

            – Ele vai caçar aqueles canguruzinhos wallabies ou dingos.

            – Ninguém acredita que vá só caçar.

            – Ah, saia daqui, Juliet, saia daqui! Se você se balançar tão perto de nós, vai nos molhar de novo, logo agora que já estamos ficando bem secas!

            Foi esse o coro que saudou Juliet quando esta finalmente saiu da água, fazendo piruetas, batendo o pé e espremendo a água de seus cabelos ruivos, agora pretos e pegajosos.

            – Está bem, está bem! Sentarei aqui neste montinho de areia debaixo do tronco de mimosa para ficar fora do sol! O pobre do Dr. Phantom diz que não tem a menor vontade de se casar, muito menos de ser pai...

            – Quem lhe disse isso, por favor?

            – Ele. Na igreja. Claro que estávamos sentados lá no fundo. Nenhum ser humano poderia ficar sentado em silêncio durante o sermão do vovô sobre os hititas, jebusitas e amonitas! É muito erudito!

            – O quê? O Dr. Phantom, um solteirão? Ele vai se apaixonar e se casar como qualquer outro homem.

            – Não. Ele diz que não. O problema, segundo ele, é que ninguém tem escolha. Na verdade, parece ser mesmo assim. Meu paizinho querido costumava dizer: “Doce ou seco?” ou: “Diga quando, meu chapa”. Já a mamãe diz: “Leite e açúcar?” Para todo mundo que entra no conforto de nosso lar, o vovô pergunta: “Você prefere a janela aberta ou fechada?” E aquele velho garçom do “The Devil’s Tail” bafeja por sobre o seu ombro e pergunta: “Gordo ou magro?” E sempre achamos que temos de fazer uma escolha entre coisas que, no final das contas, não têm a mínima importância, o que nos faz pensar que somos na verdade pessoas com desejos próprios, mas Deus não pergunta: “Menino ou menina?” quando estamos esperando para nascer – e isso é realmente importante. Ele sabe que todos diríamos “menino” e então o que seria da posteridade?

 

            – Deveria haver um terceiro sexo – concordou Victoria – sem os vícios dos homens e das mulheres e com as virtudes de ambos.

            – E sem a chatice de termos de viver como homens e mulheres.

            Juliet foi enfática.

            – É claro que existem os santos. Eles se recusam a ser homens e mulheres, mas será que gostam? Vejam São Lourenço com sua grelha, Santa Catarina com sua roda, São Sebastião com suas flechas e São Estevão com suas pedras! Eles sempre são retratados com expressões calmas e santas em seus rostos, mas duvido que eles gostem de si mesmos. Do jeito que as coisas são, diz o Dr. Phantom, nada o induziria a se casar.

            – O que é isso, Aminta querida? Lágrimas? Oh, aquele pedaço de linho cor-de-rosa é inútil. Tome meu lenço. – Mesmo Victoria ficou preocupada de ver tanta tristeza.

            – Sim – continuou Juliet, que tinha virado para o outro lado – tudo o que o Dr. Phantom quer é ser livre para ir a Burragorang ou para cruzar o Wollondilly, explorar o Nepean ou o Diamantina, ir para as montanhas caçar pombos ou patos trombeteiros nos lagos, ir para Limestone Plains caçar tarambolas e perus selvagens – há bandos deles naquela região, segundo ele – e também ir ao rio Snowy pescar truta – truta arco-íris – isso é que é vida para ele, e ele está fazendo uma coleção de...

            – Mulheres?

            – Não, sua boba! De iguanas! Ele já tem quatro dessas belezinhas.

            – Por quê... qual o problema com a Aminta?

            – Ah, coitadinha! Ela não parece infeliz?

            – Ela está ficando tão magrinha também! Dá para contar todas as suas costelas.

            – Ora – exclamou Juliet, olhando ao redor – a espinha dela parece com rabo de boi, com todos aqueles calombos.

            – Ah, minha querida! Conte-nos todas as suas mágoas. Dizem que tristeza contada é tristeza dividida.

            – Ah, estou amando! – O tom de voz de Aminta era desesperado. – Ah, o amor é uma coisa terrível, tão doce quando começa, e depois, ah – a dor, o desejo, a saudade! Não tenho mais sossego. Eu me reviro na cama. Não consigo tirá-lo dos meus pensamentos e, ai, ele não liga a mínima para mim!

            – Comece a fazer tricô, é tão fascinante.

            – Tricote uma boina para ele em lã Berlin dupla e forre com pelúcia. Com isso na cabeça, ele não vai ter como não pensar em você!

            – Borde um par de suspensórios novos para ele, iguais àqueles do cura!

            – Não caçoem dela, meninas! Não veem que é sério?

            – Estou tão inquieta! Não consigo me concentrar. O mundo parece tão irreal! Tudo o que eu mais queria era vir a esse adorável piquenique, mas agora fico aqui pensando: imagine se ele passou pelo nosso portão e eu não estava lá para vê-lo! Ai, fico acordada a noite inteira, inventando conversas com ele!

            – Por favor, conte para nós sobre o que vocês conversam. Nunca estive apaixonada!

            – Nem eu.

            – Eu também não.

            – É claro que não estivemos... ainda.

            – Nem me imagino apaixonada.

            – Deixe-me repousar a cabeça em seu ombro, Juliet querida, e então contarei a você. Estou tão deprimida, sofro, ai, como sofro! Não tenho mais forças. Veja meu braço! Está tão fraco que nem mesmo poderia suportar o peso de meu bracelete...

            – Você quer dizer aquela pulseira de filigrana prateada?

            – Sim. Deixei-a em casa.

            Aminta era, aparentemente, um caso clássico! Cada um de seus sintomas de amor impossível comparava-se aos da pobre Fedra, que, por causa da fraqueza, descartou seus incômodos ornamentos e deixou seus cachos castanho-avermelhados caírem por sobre os ombros – exatamente o que agora fazia Aminta, que já tinha soltado o coque de dentro da rede. Isso pareceu livrá-la da dor.

            – Achei o peso dela insuportável. Não comi nada no café da manhã.

            – Conte-nos, Aminta querida, conte-nos sobre essas conversas.

            – Eu imagino que estamos cavalgando juntos em dois cavalos lindos, um ruão e um mesclado de cinza, e conversamos sobre as árvores em flor e as nuvens que passam no céu...

            – Árvores e nuvens, meu bem? Você está indo pelo caminho errado. Ele não se interessa por outras conversas além do preço do feno.

            – Ou finjo que estamos velejando em um pequeno e gracioso barco, com velas cor de bronze, e vamos deslizando na água, o sol brilhando e a brisa suave como seda, tocando nossos rostos...

            – Assim como hoje! O que poderia ser mais encantador que o dia de hoje?

            – Mas ele não está aqui. Ele não está comigo! Ah, eu morrerei, sei que morrerei! Não suporto nem mais um minuto este ai, ai, ai bem no centro do meu coração! Não suporto, não suporto!

            – Ai, não é triste?

            – Ah, pobrezinha, pobrezinha!

            – Que agonia, que agonia!

            – Você tentou pedir para a vovó Smith ler sua sorte na borra do café?

           

            – Sim. Ela disse que não havia um fio de esperança.

            – Sempre achei que a vovó Smith tinha uma expressão tão divertida no rosto, você não acha, Gussie?

            – Psiu! Quero ouvir o que a Aminta está dizendo.

            – Por três vezes voltei-me para a lua nova e fiz um pedido. Dormi com uma meia cheia de maçãs embaixo do meu travesseiro. Ai, fiz uma coisa tão medonha! Enfiei um mangual dentro da chaminé! Não adiantou nada.

            – Enfiar um mangual dentro da chaminé! Aminta! Que perigo! Mas isso é Magia Negra! Ah, sua garota perversa!

            – O mais terrível é que estou ficando muito sem-vergonha. Surpreendo a mim mesma. Às vezes preciso sair da cama e fazer minhas orações, não importa quão frio esteja ou quão ruins minhas frieiras estejam! E isso não é o pior! Eu o vi entrando na farmácia. Não queria comprar nada, mas entrei também! Só para vê-lo sorrir. Achei que minha reputação não tinha importância. E ele me acenou com a cabeça, indiferente. Um cumprimento tão respeitoso... só com dois dedos.

            – É melhor vesti-la.

            – Melhor arrear Ruby e levá-la para casa.

            – Juliet, vista suas roupas e vá correndo arrear a Ruby.

            – Sim, sim, irei imediatamente! Mas alguém tem de vir e segurar os varais. A Ruby é tão imensa, é uma dificuldade colocá-la entre os varais. Ela é um cavalo de carga puro-sangue de Marselha, muito maior que qualquer égua de Flandres.

            – Vista-se, Aminta querida, e vamos para casa. E quando estivermos as nove dentro da charrete, e o sol quente estiver brilhando, e a velha Ruby estiver trotando animada, com todos os seus casquilhos tinindo, seus cascos peludos batendo nas pedras, e nós todas estivermos tagarelando feito loucas, ah, querida, isso deverá animá-la, com certeza!

            – Nada vai me animar! Ah, querida! Ah, querida! A Abigail colocou muita goma na minha blusa, os babados parecem afiados como navalhas em volta de minhas axilas, estão cortando minha pele em pedaços...

            – Venha aqui, venha aqui, meu benzinho, enxugue seus olhos, minha criança, e vamos para casa.

            – Uma dose generosa de amônia, isso irá curá-la.

            Victoria, que carregava a cesta do almoço, fez uma pausa. – E essa boneca aqui, meu bem, que você fez de leite e pão enquanto comíamos nossos sanduíches? Devemos levá-la?

            – Não é uma boneca. É Vênus. Uma oferta votiva. Afinal de contas, a gente nunca sabe, não é? Quero deixá-la na orla do mar, por precaução!

            – Paganismo também?

            Mesmo Juliet McCree estava chocada e ela era quase uma liberal.

            – Loveday Boisragon – e Gussie Wirraway se dispôs a mudar de assunto – às vezes fica hospedada no “The Devil’s Tail”. A filha do estalajadeiro foi uma de suas alunas da escola dominical. Sim, às vezes ela dá uma passadinha por lá e fica algumas noites.

            – Minha nossa! – cochichou Victoria para Octavia, que tinha quase a idade de Aminta – olha só para a Aminta! Assim que ouviu isso, enxugou os olhos! Se um gatinho pudesse parecer calculista... bem! Olha só para ela! De repente adquiriu um ar bastante maquinador, não é mesmo? Acho que é bem menos inocente do que aparenta.

            – Bobagem! Ela é tão querida! Por acaso você está querendo sugerir que ela tentará fazer com que Loveday a leve junto na próxima vez que for ao “The Devil’s Tail”?

            – O quê? – Ouvindo por acaso, Alberteena, que era precoce para seus dez anos, exclamou: – Aminta, ir com a Loveday para o “The Devil’s Tail” em Doggett’s Patch? O que ela faria em Doggett’s Patch?

            – Ora essa, o Dr. Phantom vai lá algumas vezes, sua boboca!

            Na pressa da partida, o pequeno grupo de meninas atropelou-se por entre as acácias em flor e as espessas e aromáticas samambaias gigantes do leito do riacho, e do piquenique nada restou além de muitas pegadas e marcas na areia, um galho ou dois de mimosa brilhando à luz do sol e a pequena imagem de Vênus, feita de leite e pão, a qual, quando a praia ficou deserta, logo atraiu as gaivotas e pombos, que, sem saber que não deveriam fazer aquilo, comeram-na até a última migalha.

 

Ethel Anderson (1883 - 1958)

 

            Ethel Anderson, também conhecida como Ethel Louise Mason, nasceu em 1883 em Lillington, Inglaterra, filha de pais australianos. Foi criada primeiro em Picton, New South Wales, e depois em Sydney. Em 1904, casou-se com o Major Austin Anderson em Bombaim, na Índia. O Major Anderson serviu na Primeira Guerra Mundial, deu continuidade à carreira militar e aposentou-se como Brigadeiro em 1924. Nesse ano, os Andersons mudaram-se para Sydney. Após a morte do marido, em 1949, Ethel Anderson sobreviveu graças ao seu trabalho como escritora. Morreu em Turramurra, New South Wales, em 1958.

            Valendo-se de suas experiências na Austrália, na Inglaterra e na Índia, Ethel Anderson começou a escrever para vários periódicos. Escreveu mais de 200 trabalhos, entre contos e poemas. Nos anos 40, teve publicados dois volumes de versos: Squatter's Luck and Other Poems (1942) e Sunday at Yarralumla (1947). Nos anos 40 e 50, quatro volumes de ensaios e contos tiveram destaque: Adventures in Appleshire (1944), Indian Tales (1948), At Parramatta (1956) e Little Ghosts (publicado em 1959, após sua morte).

            O conhecimento que Ethel Anderson tinha de inglês, francês, latim, grego e literatura clássica reflete-se em sua prosa e em sua poesia. Seus admiráveis experimentos com métrica e forma na poesia equiparam-se ao uso da fantasia e da comédia em sua prosa. Seu livro mais famoso, At Parramatta, é um meio-termo entre coletânea de contos e romance. Todas as histórias são ambientadas em Parramatta com os mesmos personagens. Embora cada conto seja independente, nota-se, ao longo do livro, o desenvolvimento dos personagens e da narrativa. At Parramatta é uma comédia fantástica em que Anderson expressa seu amor pelo interior da Austrália. Nessa coletânea, não há sangue nem sofrimento de verdade, mas uma curiosa mistura de farsa e conto de fadas. Foi em At Parramatta que o conto “Miss Aminta Wirraway and the Sin of Lust”, cuja tradução apresentamos aqui, apareceu publicado pela primeira vez.

            Esse conto traz uma leve e bem-humorada narrativa sobre um grupo de garotas que vai passar o dia na praia em um piquenique. O tema principal é o amor romântico, representado pelo amor impossível da jovem Aminta por um distinto membro da sociedade local. No conto, a autora ressalta as belezas naturais da região de Sydney e cita vários elementos da fauna e da flora locais. Com um estilo muito elegante e bastante poético, ela aborda algumas questões tipicamente femininas, como casamento, família, filhos, igreja, superstições, crendices, pudor e relacionamento entre homem e mulher.

 

 

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